Renato Shirakashi
Desejo × Ciência da satisfação

Como querer menos

No fim do ano você vai escrever uma lista de desejos: as coisas que quer conquistar nos próximos doze meses. Este texto aposta numa lista inversa, a das coisas que você decide querer menos. Parece às avessas, e mesmo assim é provável que você monte uma dessas quando terminar de ler.
por Renato Shirakashi
00 · A pergunta

Você conseguiu a coisa. O emprego, o apartamento, o relacionamento, o número na conta que há cinco anos parecia um teto impossível. Por algumas semanas foi bom. Depois a régua se moveu. O que era o topo virou o novo chão, e uma versão maior da mesma vontade apareceu no lugar da antiga.

Quase todo mundo já viveu esse ciclo e quase ninguém o considera estranho. Achamos que o problema é a meta ter sido pequena demais. A hipótese deste artigo é outra: o problema está na direção em que tentamos resolver a insatisfação. Passamos a vida inteira tentando conseguir mais, quando a alavanca mais forte fica do outro lado da conta.

A pergunta que organiza o texto é simples de enunciar e difícil de levar a sério: e se dá para ficar mais satisfeito querendo menos, em vez de tendo mais?

01 · A equação

Arthur Brooks, cientista social que estuda felicidade em Harvard, propõe olhar a satisfação como uma fração:

Satisfação = O que você tem O que você quer

A conta é grosseira de propósito. O valor de uma fração cresce de dois jeitos: aumentando o numerador ou diminuindo o denominador. A cultura inteira aponta para o numerador. Ganhe mais, compre mais, acumule mais, e a satisfação vem junto. Ninguém vende a outra metade da conta.

O detalhe que muda tudo é que o denominador não fica parado. Cada vez que o numerador sobe, o denominador sobe atrás, quase sempre mais rápido. Você ganha o dobro e passa a querer o triplo. É por isso que dobrar o que se tem raramente dobra a satisfação: a fração inteira se reajusta.

A esteira do desejo · roda sozinha
Já tenho: 1 satisfação: 50 Quero: 2
Já tenho
Quero agora
Começa simples e vai subindo. Cada conquista vira uma etiqueta em Já tenho e dá um pico. Só que os picos vão encolhendo a cada vez, e a linha de base sobe cada vez menos, achatando numa curva de retornos decrescentes. Toque num desejo para conquistar na hora.
02 · Faça o seu palpite

Antes de continuar, um exercício de calibração. Pesquisas sobre renda e bem-estar medem exatamente quanto de satisfação extra vem de ter mais. A resposta costuma ser mais baixa do que a intuição sugere.

O padrão geral encontrado por economistas como Richard Easterlin é que, acima de um patamar de segurança material, dobrar a renda de um país ou de uma pessoa move a satisfação relatada muito menos do que a intuição prevê. Parte disso é a esteira. Outra parte é comparação: o que pesa para como nos sentimos é o valor comparado ao dos vizinhos, dos colegas, das pessoas que vemos na tela. O valor absoluto conta pouco.

O palpite · antes de ver o dado
Você dobra a sua renda amanhã e ela fica assim para sempre. O quanto melhora a sua satisfação com a vida?
03 · A esteira

Em 1971, Philip Brickman e Donald Campbell deram um nome ao mecanismo: esteira hedônica. A ideia é que nos adaptamos às nossas circunstâncias como os olhos se adaptam à luz. Uma sala escura parece muito escura por alguns segundos, depois vira o normal. Um aumento parece muito bom por algumas semanas, depois vira o normal. Corremos na esteira e o cenário não muda de lugar.

O estudo que virou símbolo disso é de 1978. Brickman e colegas compararam ganhadores de loteria com pessoas que ficaram paraplégicas ou tetraplégicas em acidentes. Meses depois do evento, a diferença de felicidade entre os dois grupos era bem menor do que qualquer um imaginaria. Os ganhadores ainda relatavam prazer com o dinheiro, mas o encanto com as pequenas alegrias do dia a dia havia caído. A vitória tinha reajustado a régua para cima, e o cotidiano ficou fosco por comparação.

A esteira tem uma função evolutiva. Um animal permanentemente satisfeito para de caçar, de cortejar, de se proteger. A insatisfação recorrente foi o que manteve nossos ancestrais em movimento. Fomos desenhados para buscar, não para chegar. O sistema funciona lindamente para espalhar genes e péssimamente para nos deixar em paz.

04 · Querer não é gostar

Em 1954, dois pesquisadores de Montreal, James Olds e Peter Milner, implantaram um eletrodo no cérebro de um rato e ligaram o estímulo a uma alavanca. Cada vez que o rato apertava, recebia um pulso elétrico numa região específica. O animal começou a apertar. E não parou. Em experimentos seguintes, ratos chegaram a acionar a alavanca milhares de vezes por hora, ignoravam comida, ignoravam água, atravessavam pisos eletrificados que os machucavam, apertavam até cair de exaustão. Olds e Milner acharam que tinham encontrado o "centro do prazer" do cérebro.

Décadas depois, ao refazer esse tipo de experimento com medidas mais finas, Kent Berridge percebeu que a história estava trocada. Os ratos não pareciam estar em êxtase. Não havia sinal de prazer, e sim de uma busca sem fim. A alavanca não entregava satisfação, entregava mais vontade de apertar a alavanca. O que Olds e Milner tinham estimulado não era o gozo, era o desejo puro, rodando em círculo.

Isso levou Berridge a passar décadas mostrando que o cérebro trata "querer" e "gostar" como sistemas separados, com circuitos e químicas diferentes.

"Gostar" é o prazer de fato: o sabor bom na boca, o conforto de estar em casa. "Querer" é o puxão que faz a gente buscar algo antes de tê-lo, o que Berridge chama de saliência de incentivo, movido sobretudo por dopamina. Os dois costumam andar juntos, mas dá para separá-los em laboratório. Um rato com o sistema de "querer" superativado busca a recompensa com mais força sem demonstrar mais prazer ao recebê-la. Ele quer mais e gosta igual.

Isso dá nome a uma experiência comum. O desejo por uma coisa é frequentemente mais intenso do que o prazer de consegui-la. A antecipação da compra supera a compra. A vontade do próximo cargo é maior que o contentamento de ocupá-lo. O sistema de "querer" foi construído para ser insaciável, porque a insaciabilidade é adaptativa. O sistema de "gostar" é mais quieto e mais fácil de saturar. Grande parte do consumo moderno é uma máquina de estimular o "querer" e chamar isso de felicidade.

A curva do querer e do gostar · dopamina no tempo
querer gostar
O "querer" dispara antes, na antecipação, e chega a um pico bem mais alto que o "gostar", que vem depois, no consumo, e é modesto. O desejo promete mais do que a posse entrega.
05 · Quem construiu o denominador

Se o denominador cresce sozinho, vale perguntar quem o alimenta. Três forças puxam nossos desejos para cima sem que a gente perceba.

A primeira é biológica, já vista: fomos selecionados para querer mais. A segunda é a comparação social. Nosso senso do que é "suficiente" não vem de uma régua interna, vem de olhar para o lado. Quando o padrão do grupo sobe, o nosso "suficiente" sobe junto, mesmo que nada na nossa vida tenha piorado.

Durante quase toda a história, esse "lado" para onde a gente olhava eram algumas dezenas de vizinhos e parentes. As redes sociais explodiram esse número. Hoje a régua de comparação deixou de ser o vizinho e passou a ser uma seleção dos melhores momentos de milhões de pessoas, ordenada por algoritmos treinados para prender a atenção. Você compara a sua vida inteira com o auge editado da vida dos outros, o dia todo, de graça. A comparação, que já inflava o denominador sozinha, virou um serviço contínuo entregue no seu bolso.

A terceira força é a mais recente e a mais deliberada. Uma parte enorme da economia moderna depende de que você queira coisas que ainda não quer. A publicidade sempre fez isso, e a publicidade algorítmica faz melhor. O feed infinito e o design dos aplicativos exploram diretamente o sistema de "querer" de Berridge: medem o que faz você voltar e otimizam para isso, a cada rolagem. É engenharia aplicada sobre o denominador, e ela melhora todo ano.

O psicólogo Tim Kasser reuniu evidências de que pessoas que organizam a vida em torno de metas materiais e de status relatam, em média, menos bem-estar e mais ansiedade do que pessoas ancoradas em relações, competência e propósito. O material não é neutro. Quanto mais peso ele carrega na definição de uma vida boa, pior tende a ser o resultado subjetivo. O denominador que a cultura instala não só é grande, ele é o tipo de desejo que satisfaz menos.

A fábrica de desejos · arraste a época
1900 1900

As correntes do desejo são antigas.

São fortes e não as escolhemos. Mesmo assim, quem olhou de perto encontrou saídas. (continua)

06 · Os antigos já sabiam

O achado do laboratório de Berridge e a equação de Brooks reencontram, por um caminho diferente, algo que várias tradições antigas descreveram há milênios. Vale ouvi-las, porque elas passaram séculos testando técnicas para o mesmo problema.

Para os estoicos, o sofrimento nasce de querer que o mundo seja diferente do que é. Epicteto separava o que está sob nosso controle (nossos julgamentos, nossos desejos) do que não está (praticamente todo o resto), e ensinava a treinar o desejo em vez de perseguir objetos. Sêneca praticava a pobreza voluntária por alguns dias, comendo pouco e dormindo duro, para descobrir na pele que o piso do "suficiente" era muito mais baixo do que o medo dizia. Reduzir o denominador não era resignação, era liberdade: quem quer pouco depende pouco.

O budismo é ainda mais direto. A segunda das quatro nobres verdades identifica a causa do sofrimento na tanha, a sede, o desejo compulsivo por prazer, por permanência, por que as coisas sejam de outro jeito. O caminho proposto afrouxa o apego em vez de tentar matar todo desejo: ver a vontade surgir e passar sem ser arrastado por ela. É a mesma insaciabilidade que Berridge mediu no cérebro, observada de dentro há dois mil e quinhentos anos.

Tomás de Aquino, muito depois, chegou perto ao dizer que buscar felicidade em dinheiro, poder, prazer e fama é buscá-la em ídolos que nunca entregam, porque são meios tratados como fins. A convergência entre a neurociência, a economia da felicidade e essas tradições aponta para uma característica real e antiga da mente humana. Sozinha, ela não prova nada. O peso de fontes tão distantes chegando ao mesmo lugar é difícil de ignorar.

Linha do tempo das tradições · toque num marco
07 · Diminuir o denominador

Se a alavanca forte é o "quero", como se puxa ela para baixo sem cair na apatia? As tradições e a pesquisa moderna sugerem práticas convergentes. Nenhuma delas é sobre desejar nada. São sobre escolher menos desejos e melhores.

Lista reversa de desejos. Brooks propõe inverter a bucket list. Em vez de escrever tudo que você quer conquistar antes de morrer, escreva os desejos que hoje mais puxam sua energia (o reconhecimento, o próximo upgrade, a aprovação de estranhos) e risque deliberadamente alguns deles. Cada item riscado é uma diminuição consciente do denominador. O ganho de satisfação vem sem nenhuma aquisição.

De príncipe a sábio. A vida empurra a maioria para acumular recursos, status e admiração, o caminho do "príncipe". As tradições apontam a segunda metade da vida para outra direção: sabedoria, conexão, serviço, o caminho do "sábio". Trocar as fontes de satisfação de externas para internas ataca a raiz, porque desejos internos saturam menos e dependem menos dos outros. O estudo de felicidade mais longo já feito reforça isso com dados. Desde 1938, Harvard acompanha as mesmas pessoas ao longo da vida inteira, medindo o que prevê uma velhice saudável e satisfeita. O melhor preditor não foi renda, fama nem colesterol aos cinquenta. Foi a qualidade das relações próximas. As pessoas mais saudáveis e felizes aos oitenta eram as que, aos cinquenta, estavam mais satisfeitas com quem tinham por perto. Um numerador feito de vínculo envelhece melhor do que um feito de conquista.

Ficar menor. Boa parte do querer vive no passado (arrependimento) e no futuro (ambição, medo). Práticas de atenção plena treinam a mente a habitar o presente, onde a comparação e a antecipação têm menos combustível. Ficar menor é reduzir o tamanho do "eu" que precisa ser alimentado por conquistas.

Satisfazer em vez de maximizar. O psicólogo Barry Schwartz distingue quem busca "o suficientemente bom" (satisficers) de quem busca "o melhor possível" (maximizers). Os maximizadores obtêm, às vezes, resultados objetivamente melhores e se sentem pior, porque toda escolha carrega o fantasma das alternativas não escolhidas. Adotar uma régua de "bom o bastante" em decisões que não merecem otimização é baixar o denominador em dezenas de pequenas frações por dia.

Visualização negativa. A técnica de Sêneca, imaginar de vez em quando a perda do que se tem, não serve para amargurar. Serve para desfazer a adaptação: recolocar no numerador, por um instante, o valor de coisas que a esteira apagou. É a manobra oposta à propaganda. Em vez de criar um desejo novo, ela revive o apreço por algo que você já possui.

O painel de práticas · ative e veja a fração
tem 5
quer 9
56 satisfação
Nenhuma prática toca o "ter mais coisas". Todas mexem no denominador ou no apreço pelo numerador que já existe.
08 · O experimento pessoal

Ideia sem prática é entretenimento. Esta seção convida você a montar a própria lista reversa e sair da tela com uma ação concreta.

Sua lista reversa · roda tudo no seu navegador
Marque cada desejo como interno (relação, competência, propósito) ou externo (status, aprovação, acúmulo). Os candidatos a soltar aparecem destacados: externos que saturam rápido. Escolha um para largar nas próximas semanas.
09 · Onde isso pode dar errado

Querer menos vira uma péssima ideia quando lida por metade. Três ressalvas importam.

Primeiro, ambição continua valendo, e aceitar tudo não faz parte da proposta. Desejo é o motor de quase toda obra humana que vale a pena. A tese pede escolher com cuidado o que entra no denominador, porque a maioria dos nossos desejos foi instalada sem consulta e satisfaz pouco. Reduzir o denominador libera energia para os poucos desejos que merecem.

Segundo, a equação pressupõe o numerador acima de um piso. Para quem não tem o básico de segurança material, saúde e dignidade, o problema real é aumentar o numerador, e falar em "querer menos" beira o insulto. A conversa deste artigo começa depois desse piso, no território onde a maioria das pessoas em condições razoáveis passa a vida correndo por um numerador que já bastava.

Terceiro, há uma diferença entre querer menos e sentir menos. Anestesiar o desejo por medo de decepção é desistência disfarçada de sabedoria. A prática que as tradições descrevem é o contrário de apatia: é sentir o mundo com mais clareza justamente por parar de ser arrastado pela sede constante do próximo item. Menos denominador, mais presença no numerador que já existe.

Volte à lista do começo. A que a gente escreve todo fim de ano tem uma coluna só, a das conquistas. Este texto propôs uma segunda coluna, a das coisas que você decide querer menos, e mostrou por que ela costuma render mais satisfação por item do que a primeira. A satisfação sempre esteve dos dois lados da fração, e passamos a vida puxando só um deles. Fica o convite que abriu o texto: qual vai ser o primeiro nome da sua lista inversa?

Referências
Como querer menos · Renato Shirakashi. Um ensaio interativo sobre desejo e satisfação.