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Cultura japonesa · artigo interativo

O Japãopor dentro日本のうちがわ

Alguns hábitos japoneses parecem estranhos à primeira vista, mas quase todos têm uma origem concreta. Este artigo explica de onde vêm alguns deles, com pequenas demonstrações para você mexer pelo caminho.

Padrão (青海波), "ondas do mar", um dos motivos mais antigos do design japonês.
00 · introdução

Pequenos hábitos com origem concreta

Quem chega ao Japão pela primeira vez costuma reparar em coisas que funcionam de um jeito silencioso e preciso. O trem parte no segundo marcado. As ruas ficam limpas mesmo sem lixeiras à vista. As pessoas se curvam umas para as outras, falam baixo no vagão, e uma tigela de chá pode ter uma rachadura preenchida com ouro em vez de ser jogada fora.

Cada um desses hábitos tem uma razão, quase sempre ligada a algum ponto da história do país. Neste artigo eu percorro alguns deles e explico de onde vêm, usando demonstrações interativas ao longo do caminho. Entender a razão por trás de um gesto muda o modo como você o observa quando está lá.

01 · a moldura

Como o Japão se fechou e se abriu

Antes de olhar para os detalhes, vale montar a moldura. Boa parte do que o Japão é hoje foi formada por cinco momentos em que o país mudou sua relação com o resto do mundo. Vale ter esses marcos em mente, porque quase tudo o que vem nas próximas seções desce de um deles.

1639

O fechamento do país

O Japão fecha as fronteiras e mantém esse isolamento por mais de duzentos anos, um dos mais longos da história. Sair do país passa a ser proibido sob pena de morte, e quase nenhum estrangeiro pode entrar. O único contato regular com o Ocidente acontece por Dejima, uma minúscula ilha artificial em forma de leque, em Nagasaki, onde os comerciantes holandeses ficavam confinados. Sem guerras internas e sem influência de fora, o país passa esse longo período aperfeiçoando as próprias tradições. A cerimônia do chá, o teatro nô e kabuki, a gravura ukiyo-e, os jardins e a culinária ganham nessa época a forma refinada que têm até hoje, e daí vem boa parte do apreço japonês pelo detalhe e por fazer uma coisa só, muito bem feita.

1853

Os navios de Perry

O comodoro americano Matthew Perry entra na baía de Edo com uma esquadra de navios de guerra a vapor, escuros de fumaça de carvão. Os japoneses os apelidam de navios negros, e o nome ficou. O país, que ainda dependia de espadas e não tinha uma marinha moderna, percebe em pouco tempo que não tem como resistir e é obrigado a abrir os portos ao comércio. O episódio é um choque, e deixa uma lição que orienta as décadas seguintes: para não ser dominado, é preciso se modernizar depressa.

1868

A Restauração Meiji

Em cerca de uma geração, o Japão se transforma. Adota ferrovias, fábricas, um exército moderno e roupas ocidentais, e chega a abolir a classe dos samurais. O lema da época resume o plano, espírito japonês com técnica ocidental: importar a tecnologia de fora sem deixar de ser japonês. Esse reflexo de absorver o que vem de fora e adaptar até dominar reaparece depois em tudo, do automóvel à animação. É também a origem da cena que surpreende todo visitante, com um templo de mil anos convivendo, sem estranhamento, ao lado de um bairro de arranha-céus e neon.

1945

O fim da guerra

A derrota na Segunda Guerra, com as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki e a ocupação americana que se segue, deixa o país devastado. Durante anos, a ocupação censura até mesmo falar publicamente da bomba, e o assunto fica represado. Vêm daí um pacifismo profundo e uma relação desconfiada com a tecnologia. Quando a censura afrouxa, esse trauma reaparece transformado na cultura popular: Godzilla, de 1954, é um monstro despertado pela radiação, e muita gente saía do cinema em lágrimas, num raro momento em que era possível chorar aquela perda coletiva.

1990

O baixo crescimento e o Cool Japan

Depois de um crescimento acelerado no pós-guerra, a economia estagna a partir dos anos 1990 e a população começa a envelhecer. No mesmo período, a cultura japonesa vira uma das maiores exportações do país. Animação, quadrinhos, videogames, culinária e moda passam a definir a imagem do Japão no mundo, a ponto de o governo criar um programa oficial chamado Cool Japan para incentivar isso e, em 2008, nomear a personagem Hello Kitty embaixadora do turismo japonês no exterior. Boa parte do Japão que se admira hoje nasce dessa fase.

Dois desses marcos pesam mais que os outros. O longo isolamento explica o cuidado extremo com a forma e o detalhe; a abertura forçada de 1853 explica a facilidade de absorver o que vem de fora sem deixar de ser japonês. Guarde os dois, porque reaparecem em quase todas as seções seguintes.

02 · crenças

Duas religiões que convivem sem atrito

O japonês raramente se descreve como religioso, mas a vida diária passa por duas lentes que convivem sem conflito. A primeira é o xintoísmo, a religião nativa, sem fundador nem livro sagrado, para a qual espíritos, os kami, habitam montanhas, rios, árvores, objetos e antepassados. Nela quase não existe a ideia de pecado; existe a de puro e impuro. Boa parte da mania japonesa de limpeza é, no fundo, teológica. A água para lavar as mãos na entrada de um santuário, o sal usado para purificar, o banho antes de entrar na banheira, tudo vem daí.

A segunda lente é o budismo, que chegou no século VI e trouxe a ideia de que tudo é passageiro. As duas repartem a vida sem disputa, a ponto de existir um ditado de que o japonês nasce xintoísta, casa no estilo cristão e morre budista: nascimentos e casamentos costumam passar pelo santuário, e os funerais, pelo templo. É uma espiritualidade de gestos e ocasiões, mais do que de doutrina.

Dois traços dessa visão aparecem à toa. Os números 4 e 9 são evitados porque soam como as palavras para morte e sofrimento, então muitos prédios e hospitais pulam esses andares e quartos. E o matsuri, a festa de um santuário, é o momento em que a contenção japonesa se inverte: dezenas de pessoas carregam pelas ruas, aos gritos e empurrões, um santuário portátil, para levar o kami a passear.

03 · o grupo

Harmonia e os círculos de proximidade

O valor que organiza boa parte do comportamento social japonês é o wa (), a harmonia do grupo. Um nome antigo do próprio país é justamente Wa, e o caractere vale até hoje como "japonês" em palavras como washoku (a comida), wafuku (a roupa tradicional) e washi (o papel), de modo que a ideia de harmonia está dentro do próprio nome. Na prática, a intensidade com que o wa age depende de quão próxima uma pessoa está de você. Os japoneses separam o mundo entre uchi (, dentro) e soto (, fora), e tratam os dois de formas bem diferentes.

Na demonstração abaixo, o centro é você. Arraste o ponto para as bordas e observe como a linguagem e o comportamento esperados mudam a cada anel. No núcleo, com a família, a fala é casual e você diz o que pensa, o que se chama honne. Nas bordas, com estranhos, a fala passa a ser formal, o keigo, e o que se mostra é a versão cordial e contida, o tatemae.

Você
O centro, onde não há necessidade de performar.
honne · o que se sente
Arraste o ponto do centro para a borda. Cada anel formaliza a linguagem e o comportamento.

Isso ajuda a entender algumas cenas comuns. O atendente que trata o cliente com uma cortesia quase cerimoniosa está seguindo a regra do soto. O colega de trabalho que só relaxa de verdade num jantar regado a bebida, o nomikai, está cruzando por algumas horas a fronteira para o uchi. Também é por isso que um "sim" nem sempre é um sim: para não quebrar a harmonia, costuma-se evitar o "não" direto e responder com um "é um pouco difícil", que na prática quer dizer não. A cortesia distante com quem está de fora é a forma padrão de respeito.

O wa não anda sozinho. Perto dele vivem outros valores. Há um senso de obrigação de retribuir favores, sempre em tensão com o sentimento pessoal de cada um, e essa queda de braço move boa parte do teatro e das histórias japonesas. Há o hábito de suportar o difícil em silêncio e o de dar o máximo até o fim; o lado sombrio dessa última virtude tem até um nome próprio, a morte por excesso de trabalho. Há a hospitalidade que antecipa a necessidade sem esperar nada em troca, que ajuda a explicar tanto o serviço impecável quanto a ausência de gorjeta. E por baixo de tudo está o apreço pela forma correta de fazer cada coisa, o caminho da maestria que sustenta a figura do artesão de um ofício só.

04 · convivência

Tirar os sapatos, e outros hábitos

Poucas regras surpreendem tão cedo na viagem quanto a dos sapatos. Em casas, ryokans, muitos templos e até alguns restaurantes e escolas, os sapatos ficam num degrau rebaixado na entrada, e dali em diante se anda de meia ou de pantufa. O chão de dentro é território limpo, e a rua fica do lado de fora, literalmente. Costuma haver ainda um par de chinelos só para o banheiro, que não deve sair de lá. É a mesma fronteira entre uchi e soto, dentro e fora, transformada em piso.

Rua
Arraste a pessoa para dentro da casa e acompanhe o que acontece com os pés.
nos pés: sapato
Arraste a pessoa entre as zonas. O calçado troca sozinho a cada fronteira.

Dois gestos mostram o peso das formas. O cartão de visita é entregue e recebido com as duas mãos e lido com atenção; guardá-lo sem olhar, ou enfiá-lo no bolso de trás, soa quase como uma ofensa, porque o cartão representa a própria pessoa. E há a economia dos presentes: quem viaja costuma voltar com uma lembrancinha de viagem para os colegas, e o capricho do embrulho importa tanto quanto o conteúdo.

No trem, o clima é de silêncio, com os celulares no modo silencioso e as conversas em voz baixa, de novo para não incomodar os outros, o meiwaku. Uma palavra resume boa parte dessa delicadeza: sumimasen serve como "com licença", "obrigado" e "desculpe" ao mesmo tempo, numa cultura em que agradecer e pedir desculpa quase se confundem. E, como no banho, não se dá gorjeta, porque o bom serviço é o padrão, não um extra a ser comprado.

05 · o corpo

A reverência e seus ângulos

A reverência aparece o tempo todo no Japão, em saudações, agradecimentos e pedidos de desculpa. O que muda o significado é o ângulo do corpo. Ajuste o controle na demonstração abaixo para ver a mesma pessoa passar de um cumprimento casual a uma desculpa formal.

15° 
Eshaku: saudação cordial do dia a dia.
Cerca de 15° para saudação casual, 30° para respeito formal, 45° para desculpa profunda ou grande gratidão.

Há uma convenção prática por trás disso. Entre duas pessoas de posições diferentes, a de posição inferior costuma se curvar primeiro, um pouco mais fundo e por um tempo ligeiramente maior. Um detalhe mostra o quanto o gesto é automático: muitos japoneses se curvam mesmo ao telefone, para alguém que não pode vê-los.

06 · estética

Wabi-sabi e o conserto com ouro

A estética japonesa tem um conceito central chamado wabi-sabi (), o apreço pela beleza do que é simples, imperfeito e passageiro. Uma boa forma de entender de onde ele vem é uma história do século XVI.

Sen no Rikyū foi o mestre que definiu a cerimônia do chá como ela é praticada até hoje, baseada em utensílios rústicos, um ambiente despojado e gestos econômicos. Seu senhor, o poderoso Toyotomi Hideyoshi, tinha o gosto oposto, e chegou a mandar construir uma sala de chá inteiramente revestida de ouro. Em 1591, por razões que os historiadores atribuem em parte a esse choque de valores, Hideyoshi ordenou que Rikyū cometesse seppuku, o suicídio ritual. Segundo o relato mais conhecido, Rikyū conduziu uma última cerimônia de chá impecável, apresentou cada utensílio para os convidados admirarem, e só então cumpriu a ordem.

O kintsugi () é a aplicação mais direta dessa ideia a um objeto. Quando uma peça de cerâmica quebra, o conserto é feito com laca misturada a pó de ouro, que deixa a linha da fratura visível e brilhante. A quebra passa a fazer parte da história da peça. Clique no botão abaixo para reparar a tigela.

No kintsugi, a fratura é realçada em vez de escondida.

O mesmo gosto aparece no espaço. Existe uma palavra, ma (), para o intervalo vazio: a pausa numa conversa, o silêncio entre dois sons, a parte não preenchida de um cômodo. O vazio não é ausência, é parte da composição. A casa tradicional é feita disso, com o tatame servindo de unidade de medida do próprio cômodo, as portas de papel translúcido filtrando a luz em vez de barrá-la, e um nicho de contemplação que existe apenas para abrigar uma única flor ou pintura por vez.

A cerimônia do chá é onde essas ideias se juntam num só ritual, com cada gesto pensado para transmitir harmonia, respeito, pureza e tranquilidade. E o idioma tem um vocabulário fino para tipos de beleza que o português nem sempre nomeia: a elegância discreta e sem esforço, a sobriedade que fica mais bonita com o tempo, e o refinamento aristocrático.

07 · o tempo

As setenta e duas estações do ano

O calendário tradicional japonês divide o ano em muito mais que quatro estações. São vinte e quatro termos solares, os sekki, e dentro deles setenta e duas microestações, os , de cerca de cinco dias cada. Cada microestação tem um nome curto e descritivo, como "chega o vento quente" ou "o orvalho na relva embranquece".

Essa divisão fina ainda tem efeito prático. O prato servido num restaurante, o doce tradicional (wagashi), a flor num arranjo e a estampa de um quimono mudam conforme a época do ano. Ela também está ligada ao mono no aware (), a sensibilidade à passagem do tempo, que é parte do motivo pelo qual se dá tanto valor à cerejeira, cuja flor dura poucos dias. Gire a roda abaixo. Ela começa na microestação de hoje.

 Shōsho
Pequeno calor, o verão aperta.
温風至 · chega o vento quente
≈ 7 a 22 de julho
Arraste para girar. O ponteiro no topo marca a microestação atual.

Esse calendário fino ganha vida nas festas do ano, e é provável que a sua viagem cruze com alguma. Na primavera vem o hanami, a contemplação das cerejeiras, que carrega justamente o mono no aware, já que a flor dura poucos dias. No verão, os matsuri e os festivais de fogos. No outono, a temporada das folhas vermelhas, uma espécie de hanami de outono. E o mais importante de todos é o Ano Novo, o feriado mais sagrado do país, quando as famílias visitam o templo e os sinos budistas tocam 108 badaladas, uma para cada desejo mundano que o budismo diz nos prender.

08 · à mesa

A refeição como ritual, três vezes por dia

A refeição começa e termina com duas fórmulas. Antes de comer se diz itadakimasu, que é menos "bom apetite" e mais "recebo esta vida", um agradecimento a todos que trouxeram a comida até ali, inclusive ao que morreu no prato; ao fim, um "foi um banquete". Há também tabus fortes com os palitos: nunca se finca o palito em pé no arroz nem se passa comida de palito para palito, porque são gestos do ritual de funeral. São erros que causam desconforto imediato, não uma simples questão de boas maneiras.

No descanso
Arraste os palitos até uma das posições marcadas na mesa.
correto
Arraste os palitos. Duas das cinco posições são tabu por virem de ritos funerários.

Outras regras invertem o que se espera no Ocidente. Sugar o macarrão do rámen fazendo barulho é bem-visto, porque esfria a massa e sinaliza que você está gostando, embora assoar o nariz à mesa seja falta grave. Foi um pesquisador japonês, Kikunae Ikeda, quem isolou o umami em 1908 e o descreveu como o quinto sabor, ao lado do doce, do salgado, do azedo e do amargo. E, ao beber, há uma pequena coreografia: você enche o copo dos outros e espera que encham o seu, em vez de se servir.

Vale ainda um elogio ao konbini, a loja de conveniência. Aberta 24 horas e presente em cada esquina, ela vende comida pronta de qualidade surpreendente, paga contas e resolve a vida do viajante. Junto das máquinas automáticas espalhadas por toda parte, é um sistema que só funciona bem num país de altíssima confiança e pouquíssimo furto.

09 · o banho

As regras do banho

O banho em fontes termais, o onsen (), reúne várias dessas ideias num só lugar. Historicamente, o banho no Japão tem função de purificação, herança do xintoísmo, em que a sujeira é entendida também como uma impureza a ser removida antes do contato com o que é limpo ou sagrado. O banho comum também funciona como um espaço sem hierarquia, já que sem roupa e sem títulos as diferenças de posição ficam menos visíveis.

Disso decorre um conjunto de regras, e a maioria surpreende quem visita pela primeira vez. Responda às perguntas abaixo para ver a razão por trás de cada uma.

Cada escolha revela a razão cultural por trás da regra.
10 · o país que funciona

Trens no segundo, ruas sem lixeira

Boa parte da fama de eficiência do Japão vem de hábitos com raízes bem concretas. Os trens são o exemplo extremo: em algumas linhas o atraso médio é medido em segundos, e quando um trem parte adiantado por engano a empresa chega a divulgar um pedido formal de desculpas. Nas plataformas, é comum ver funcionários apontando para os sinais e dizendo em voz alta o que estão conferindo. Essa técnica, apontar e falar, existe desde o começo do século XX, quando um maquinista de vista fraca passou a confirmar cada sinal em voz alta com o ajudante. Um estudo mediu que apontar e falar ao mesmo tempo reduz os erros em quase 85%, e o metrô de Nova York adotou a prática depois de ver o resultado.

A limpeza das ruas tem uma origem mais sombria. Quase não se veem lixeiras públicas no Japão, e isso remonta a 1995, quando a seita Aum Shinrikyo escondeu numa lixeira parte do material usado no ataque com gás sarin ao metrô de Tóquio; depois disso, as lixeiras foram retiradas de estações e espaços públicos. Ainda assim as ruas ficam limpas, porque vale a regra de que seu lixo é sua responsabilidade. As pessoas costumam carregar o próprio lixo até em casa, um hábito reforçado desde cedo, já que nas escolas as crianças passam alguns minutos por dia limpando a própria sala.

11 · imaginação

Do trauma à fábrica de imaginação

A fofura onipresente do Japão, o kawaii, tem uma origem improvável. Nos anos 1970, adolescentes começaram a escrever numa letra redonda e infantil, cheia de coraçõezinhos e estrelinhas, como uma forma silenciosa de resistir à rigidez do mundo adulto. As papelarias transformaram aquilo em produto, a Hello Kitty apareceu em 1974, e o fofo virou uma espécie de língua oficial do país, de mascotes de prefeitura a mascotes de presídio.

A base da cultura pop moderna vem um pouco antes. Osamu Tezuka, que foi criança durante a guerra, criou em 1952 o Astro Boy, um menino-robô com coração humano, construído por um cientista que havia perdido o filho. Tezuka trouxe a linguagem do cinema para o papel, com ângulos e movimento, e por isso é chamado de o Deus do Mangá. O robô com sentimentos já carregava a pergunta do Japão do pós-guerra sobre se a tecnologia pode ter compaixão.

E há os pequenos enigmas que todo visitante coleciona. O Natal é celebrado com balde de KFC, tradição que uma campanha publicitária de 1974 inventou do zero, e o dia 24 é a data mais movimentada do ano para a rede. As máscaras faciais já eram comuns muito antes da pandemia, por educação e privacidade. O Kit-Kat virou amuleto de vestibular porque o nome lembra a expressão japonesa para "com certeza vencer". E muita gente pergunta o seu tipo sanguíneo como quem pergunta o signo, acreditando que ele revela a personalidade. São sistemas com uma lógica interna própria, como as réplicas de comida em plástico nas vitrines, os hotéis-cápsula e as melodias que anunciam cada estação de trem.

12 · fim

Olhar com contexto

Nenhum desses hábitos precisa ser decorado para a viagem valer a pena. O que ajuda é saber que eles existem e de onde vêm. Quando o trem chegar no horário exato, você vai reconhecer a mesma preocupação com precisão que aparece na história do país. Quando precisar guardar o próprio lixo no bolso por algumas horas, vai reconhecer o hábito de evitar incomodar os outros, o meiwaku. Ver o Japão com essa camada de contexto torna a observação mais rica, e é também uma forma de respeito por um lugar que quase nunca se explica em voz alta.